Análise de Genival de Souza e Silva aponta que a profissão de corretor se fortalece enquanto a necessidade de manter uma estrutura própria de corretora deixa de ser uma exigência econômica
O mercado brasileiro de seguros vive uma transformação silenciosa que pode redesenhar a forma como a distribuição de seguros se organiza no país. Dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram que o número de corretores de seguros pessoas físicas permanece estável, próximo de 85 mil registros ativos, enquanto a quantidade de empresas corretoras caiu para menos de 64 mil.
Embora parte dessa redução seja resultado da revisão cadastral realizada pela autarquia, o estrategista Genival de Souza e Silva acredita que o fenômeno revela uma mudança estrutural muito mais profunda. Segundo ele, a estabilidade no número de profissionais demonstra que o mercado continua formando corretores, mas já não exige que cada um deles mantenha uma empresa própria para exercer a atividade.
“A pessoa permanece. A estrutura desaparece. O mercado continua formando profissionais, só não exige mais que cada um se torne dono de uma corretora”, afirma.
Na análise publicada pelo especialista, essa mudança decorre da separação de dois negócios que, durante décadas, estiveram reunidos dentro da mesma corretora. De um lado está o relacionamento de confiança construído pelo corretor com seus clientes. De outro, toda a estrutura operacional necessária para sustentar esse atendimento, como tecnologia, processos administrativos, sistemas e acordos comerciais com seguradoras.
Durante muitos anos, essas duas dimensões eram economicamente inseparáveis. Quem desejava atuar como corretor precisava criar e manter toda essa infraestrutura. Segundo Genival, esse cenário começou a mudar com o fortalecimento das assessorias, grupos de consolidação e plataformas que passaram a oferecer essa estrutura compartilhada para milhares de profissionais.

“O que mudou não foi a corretora se separar. Foi a integração entre os dois negócios deixar de ser uma necessidade econômica. A integração virou escolha onde antes era condição.”
Para o estrategista, a recente resolução aprovada pelo Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP) reforça esse movimento ao modernizar a formação dos corretores. A norma consolida em um único diploma as regras da corretagem, revoga treze resoluções anteriores e estabelece mudanças importantes, como a habilitação por segmento de atuação, o registro único válido em todo o território nacional, a simplificação do credenciamento das instituições responsáveis pela formação dos profissionais e o incentivo à concorrência entre essas entidades. Além disso, determina que o corretor mantenha atualização permanente sobre legislação, práticas de mercado e inovações técnicas.
Na avaliação de Genival, a regulamentação fortalece justamente a profissão, sem criar qualquer obrigação de que o profissional possua uma estrutura empresarial própria.
“A nova norma torna mais fácil formar o corretor. Não torna mais fácil sustentar uma corretora. Ela moderniza a metade do caminho que sobreviveu, a profissão, num mercado em que a outra metade, a empresa própria, deixou de ser obrigatória. A formação deixa de ser uma etapa vencida na entrada e passa a ser uma obrigação contínua.”
O especialista afirma ainda que essa separação entre a atividade profissional e a estrutura empresarial ajuda a compreender diversos movimentos observados atualmente no setor, como o crescimento das assessorias, a consolidação do mercado, as aquisições de carteiras e os desafios relacionados à sucessão das corretoras.
Na visão de Genival, o novo cenário não obriga o empresário a abandonar sua corretora, mas exige uma reflexão estratégica sobre onde está o verdadeiro diferencial competitivo do negócio.
“O que ela cobra é anterior à escolha: saber em qual dos dois está o seu valor. No que a sua estrutura faz por muitos, ou no que só você faz por cada cliente.”
Ao concluir sua análise, o estrategista resume o momento vivido pelo setor com uma afirmação que, segundo ele, sintetiza a principal mudança em curso no mercado brasileiro de seguros.
“A transformação mais profunda da distribuição de seguros não será tecnológica. Será econômica.”


